Translate this Page

Rating: 3.2/5 (120 votos)


ONLINE
1



Partilhe esta Página

 

 


Malalú, Conto de Luiz Amato
Malalú, Conto de Luiz Amato

MALALÚ  

Por Luiz Amato

 

Acabara de completar nove anos. Nos moldes ocidentais estaria em uma escola plena, recebendo a devida instrução e interagindo com outras crianças. Mas no leste do continente africano não era assim. Tinha que ajudar nas tarefas diárias da família.

Sua ajuda era vital. O amassar do grão do milho, tão bem feito como o de um adulto. Pescava com o pai o bagre barrento, que, salgado, supria a fome sempre presente.

 

Como todos no povoado, era alta e magra, nariz redondo e proeminente. Não tinha um padrão belo de acordo com os locais, mas, segundo eles, a vivacidade de seus olhos valia duas vacas e uma cabra. Sexta filha de uma prole de onze, recebera o nome de Malalú (a esperta), no dialeto da tribo.

Mesmo com todos os afazeres ela ainda se divertia. Estava muito à frente dos irmãos.

E assim os anos passaram. Faltava um mês para os treze. Tornara-se mulher. Logo um moço da aldeia a cortejaria.

 

Mas a grande seca chegou. Primeiro foram as plantações. Depois os animais de trabalho e sustento. Os mais velhos se reuniam, mas não tinham perspectiva e nem para onde ir. Até o bagre barrento sumira. Todavia, nem tudo estava perdido.

Um acampamento fora montado a poucos quilômetros. Ajuda do governo chegara, porém, alimentos só em troca de favores com o administrador, um negro alto e gordo.

Sempre que ia com o pai carpir o local em troca de migalhas, observava as mulheres dispostas a trocar favores sexuais por alguns grãos de comida.

Os dias passavam. A chuva não vinha. A fome começava a matar.

 

Naquela noite, vendo os irmãos mais novos chorarem com as mãos na barriga, chamou o pai para fora do casebre.

A conversa foi séria. Os dois se abraçaram, concordando. Lágrimas eram difíceis, devido à desidratação. Num gesto que só um pai que ama seus filhos sabe, acariciou o rosto de Malalú. Nenhum deles conseguiu dormir,

Ela levantou cedo. Seus pensamentos estavam claros. Sabia o que tinha de fazer. Era um sacrifício, mas a família vinha em primeiro lugar. Cumpriu suas parcas tarefas.

Começara o entardecer quando se dirigiu ao acampamento. Demorou bastante, como se precisasse criar coragem para o que viria a seguir. Respirando fundo, entrou na cabana do administrador. Ele estava só.

 

A conversa foi rápida. Como um pecuarista que olha um boi reprodutor na hora da compra, examinou-a, lascivo, abrindo um largo sorriso.

Foi até a despensa, coletando duas canecas de milho, uma de feijão e um naco de carne defumada. Afinal ela nunca tivera relação. Seus olhos brilhavam.

Caminharam por várias centenas de metros, até uma caverna, local conhecido como o ponto de “abate“ do administrador. Ele era todo prosa.

Ao chegar lá, fez questão de acender um charuto. Vira isso em um filme ocidental.

Após algumas baforadas, cuspiu, jogando-o longe. Esses americanos. Sorriu.

Mostrou a ela um amontoado de palha seca. Malalú deitou-se.

 

Sem pensar, deixou o corpanzil cair sobre ela. Sua língua, espessa, dançava em seu rosto. Sentiu a mão dele em suas coxas. Nojo e asco encheram os seus sentidos.

Com esforço, conseguiu sacar uma fina lâmina, escondida em suas roupas, enfiando-a no olho do frenético “parceiro”. Atingiu-lhe o cérebro. Saindo de baixo dele, limpou o sangue que lhe atingira o rosto.

 

Na porta da caverna, soltou dois pios, como o de uma ave de rapina, seguido de um assovio. Seu pai apareceu, semblante preocupado, tranquilizando-se quando notou estar tudo bem.

Como combinado, pegou uma peça de tecido que levara com ele. Enrolaram o corpo.

Limparam o local, arrumando-o como se estivesse pronto para um novo “abate”. Aguardaram em silêncio o chegar do anoitecer.

 

O resto da noite foi cansativo. Fora muito mais difícil do que pensaram, levar o corpo do administrador até o casebre.

Mas uma certeza eles tinham. Havia muita carne para ser salgada, e escondida. De fome eles não morreriam.

Afinal ela era Malalú.

 

Fim