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Entrevista Victor Hipolito
Entrevista Victor Hipolito

Victor Hipólito - Diversidade sexual e de gênero em foco

Assessor de políticas públicas para comunidade LGBTQI+ fala sobre saúde preventiva, empoderamento trans e comenta ações inclusivas

Transgênero, travesti e transexual são identidades de gênero, não há relação com orientação sexual; transgêneros e transexuais basicamente são pessoas que, ao nascerem, lhes foram atribuídas um gênero, porém, se identificam com outro”

Redes sociais na internet e aplicativos de relacionamentos facilitam encontros íntimos e estimulam modismos relacionados a práticas sexuais. Tem-se então o incentivo à promiscuidade e aventuras na busca do prazer, ignorando cuidados sanitários. A prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, nas relações homossexuais e heterossexuais, é menor entre a população jovem.

Acontece em julho, em ambiente online/lives, devido ao isolamento social, em decorrência do novo coronavírus (Covid-19), o V Festival Internacional de Cinema da Diversidade Sexual e de Gênero de Goiás (Digo). Audiovisual direcionado à diversidade promovendo conscientização e autoestima.

Victor Hipólito é graduado em Ciências Políticas na Universidade Federal de Goiás (UFG), e assessor especial de políticas públicas para a comunidade LGBTQI+, na prefeitura da capital goiana. Em conversa franca e didática revela curiosidades referentes à sexualidade, em nossa época, detalha estratégias e avalia projetos governamentais.

Confira a entrevista com Victor Hipólito

As autoridades sanitárias brasileiras, em estudo recente, apontam o aumento de infecção com sífilis, úlcera genital e Aids em jovens entre 20 e 29 anos de idade. O que esses dados revelam?

Sobre a sífilis e outras ISTs revelam a despreocupação em relação à saúde e prevenção pessoal, e esse não é um fenômeno exclusivo da população LGBTI, jovens heterossexuais veem o preservativo, por exemplo, como modo de evitar uma gravidez, caso a parceira tenha algum método contraceptivo, muitos descartam o uso da camisinha, ou recorrem à pílula do dia seguinte. Já sobre a população LGBTI, a maior preocupação é infecção pelo HIV, e aqui eu vou fazer uma correção quanto ao seu questionamento, existe aumento de infecções de HIV e não de Aids. HIV é quando a pessoa possui o vírus, mas não manifestou o estágio avançando da doença, que é a Aids. Os casos de HIV aumentam no Brasil, porém os casos de morte por Aids têm reduzido. Devido ao tratamento eficaz oferecido pelo SUS, então, as pessoas perderam um pouco o medo do HIV.

 Em linhas gerais. Qual o foco da política pública municipal voltada à saúde psicológica e sexual da comunidade LGBTQI+? Quais exemplos de ações implementadas?

A população LGBTI é conhecida por ser uma comunidade festiva, alegre, ligada à música e eventos culturais. Apoiamos entidade e ONGs que promovem atrações culturais para a população LGBTI de baixa renda e da periferia, usamos esses atos como oportunidades para conversar com esse público, que talvez não seria atraído caso fizéssemos um evento oficial de políticas públicas. Junto ao evento, levamos assistentes sociais, psicólogos, advogados, em parceria com a OAB-Góias, e fazemos ação dentro da comemoração. Distribuição de insumos de prevenção, e demais materiais sobre acolhimento e assistência.

. Quais ações a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Políticas Afirmativas de Goiânia, disponibiliza referente à moradia, capacitação profissional e apoio jurídico à população LGBTQI+, em situação de vulnerabilidade?

A Secretaria de Direitos Humanos trabalha com políticas públicas transversais, ou seja, em conjunto com outras secretarias e demais órgãos, se identificarmos algum LGBTI em situação de rua, encaminhamos para Semas (Secretaria de Assistência Social), se for menor de idade, comunicamos o Conselho Tutelar. Referente à capacitação profissional, temos projetos em parceria com ONGs e o Ministério Público do Trabalho. Oferecemos cursos de culinária e costura, para as pessoas terem fonte de renda. Sobre apoio jurídico, temos parcerias com a Defensoria Pública do Estado de Goiás, juntos fazemos anualmente, um evento onde reunimos pessoas transexuais para realizar a alteração do prenome e gênero, por se tratar de um processo caro, a Defensoria garante a gratuidade do processo, a Secretaria de Direitos Humanos realiza a logística, fazemos um mutirão aqui na Secretaria, reunimos todos os documentos necessários e levamos ao cartório. Diversos serviços são oferecidos, como: confecção de outros documentos, testes rápidos de ISTs, palestras, etc.

A esquerda subiu num púlpito, e tem fala empírica, com bom embasamento teórico e filosófico, mas a grande população não entende esse discurso. Nossa pauta tem que trazer dignidade para as pessoas". 

Há ainda muitos equívocos relativos à diversidade sexual e de gênero. Quais as diferenças básicas entre transgênero, travesti e transexual?

Transgênero, travesti e transexual são identidades de gênero, não há relação com orientação sexual. Transgêneros e transexuais basicamente são pessoas que, ao nascerem, lhes foram atribuídas um gênero, porém, se identificam com outro. As travestis são um gênero e fenômeno exclusivo da América Latina, eram pessoas marginalizadas, consideradas cidadãs de segunda categoria, ou nem isso. Então, resignificaram o termo como forma de empoderamento.

. A educação sexual mostra-se relevante e ao mesmo tempo cercada por polêmicas e tabus. Como essa questão é trabalhada pela Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Políticas Afirmativas?

É bem complicado, pois a gestão municipal tem bastante boa vontade em trabalhar a pauta de diversidade nas escolas, porém, encontramos resistência por parte de vereadores, que dizem querermos implantar a tal “ideologia de gênero”, algo que não existe.

. Qual a sua avaliação referente aos protestos antifascismo no Brasil?

Bom, eu tenho opinião bem específica quanto a isso. Entendo que estamos fugindo do tema quando convocamos esses protestos. Existe sim uma onda conservadora e reacionária, não apenas no Brasil, mas é um fenômeno mundial, vemos isso na França, Polônia e Alemanha, com ressurgimento de partidos neonazistas, na Grécia, e também nos Estados Unidos. No Brasil, o atual presidente tem essa tendência, mas não por questão ideológica, por ser um... desculpa, o termo, mas é o que mais se aproxima, por ser burro. Jair Bolsonaro não estudou, ele é anti-intelectual, anticientífico, anticultura, não sabe nada, nem de gestão pública, nem de políticas públicas, nem de sociologia, nem de direito. Bolsonaro é um falastrão populista, que joga pra plateia. Você acha mesmo que todos que votaram nele são fascistas? Eu não acho, enquanto a esquerda estava discutindo liberação da maconha, casamento gay... Bolsonaro acusava essas pessoas de roubo. O que falta para a esquerda é estratégia, e abrir mão do ego. Unir e estabelecer um discurso que alcance o pobre, o jovem preto da favela, o trabalhador do sertão. A esquerda subiu num púlpito, e tem fala empírica, com bom embasamento teórico e filosófico, mas a grande população não entende esse discurso. Nossa pauta tem que trazer dignidade para as pessoas. Que elas tenham paz e tranquilidade em sua rotina. E, como se faz isso? Com políticas públicas que geram oportunidades iguais para todos.