Translate this Page

Rating: 2.7/5 (365 votos)


ONLINE
2



Partilhe esta Página

 

 


Entrevista com o autor Felipe Castilho
Entrevista com o autor Felipe Castilho

ela Primeira Vez

La Oliphant promove sessão de autógrafos com Felipe Castilho

Evento na livraria Livretto, em Barra Mansa, contará com bate-papo, mediado por Débora Costa, responsável pelo blog literário.

Horror cômico: Em “Serpentário”, Castilho apresenta ao leitor um arquipélago hostil com segredos perturbadores agregado à sua marca característica 

Serpentário”, obra que combina folclore e mitologia a elementos da cultura pop tem data marcada para seu lançamento. No dia 26 de outubro, às 10h, na livraria Livretto, em Barra Mansa, será lançada a mais nova obra de Felipe Castilho, publicada pela editora Intrínseca. O evento receberá os leitores e contará com um bate-papo, mediado por Débora Costa (responsável pelo blog literário La Oliphant), seguido de sessão de autógrafos. 

Com uma trajetória orientada pela literatura desde a primeira infância, Felipe Castilho lançou-se aos livros de fantasia e tem como forte característica a fusão de elementos da cultura pop moderna a referências tradicionais de folclore, mitologia e de gêneros como ficção científica e horror. 

Com isso, chegamos a “Serpentário”, livro que conta a história de quatro jovens que viram suas vidas mudar drasticamente após o réveillon de 1999, na Ilha de Cobras, e o que acreditavam ser apenas uma lenda retorna para fazer suas certezas caírem por terra. Em um horror cômico, o autor nos apresenta um arquipélago hostil com segredos perturbadores agregado à marca característica do autor paulista.  

Um pouco sobre a organizadora do evento 

Débora Costa (responsável pelo blog literário La Oliphant)

O La Oliphant é um blog literário com 5 anos de existência, com um público que soma aproximadamente 25 mil seguidores com forte engajamento diário. Autora de resenhas voluntárias e ávida leitora, Débora Costa compartilha suas resenhas através dos seus perfis nas redes sociais, contando com o apoio de grandes editoras do mercado literário, como o Grupo Editorial Record, Editora Rocco, Editora Intrínseca, entre outras.  

> Local: Livraria Livretto - Avenida Joaquim Leite, 577, loja 16-A, Centro, Barra Mansa. Horário: 10h. Exemplares do livro estarão à venda durante o evento.  

O terror da Ilha das Cobras  

Se você já ouviu falar da Ilha das Cobras, sabe que o local é um verdadeiro pesadelo para quem não suporta seres rastejantes. Mais do que um equívoco darwiniano ou uma lenda popular, tudo que envolve a ilha do litoral paulista é muito assustador e misterioso. 

Esse cenário inspirou Felipe Castilho, autor de “Ordem Vermelha: Filhos da Degradação”, a escrever seu novo livro, “Serpentário”. Com traços de H.P. Lovecraft, a obra que chegou às livrarias no dia 15 de agosto mescla referências do folclore e de mitologias a elementos da cultura pop, da ficção científica e do horror. 

Na trama, Caroline, Mariana e Hélio costumavam deixar a capital paulista todos os anos para encontrar Paulo, um jovem habituado à vida caiçara. Mas a amizade do grupo sofreu um abalo sísmico no réveillon de 1999, quando algo tão inquietante quanto o bug do milênio abriu caminho para uma ilha - e explorá-la talvez não tenha sido a melhor decisão. 

Entre memórias e fatos fragmentados, o que aconteceu naquela noite se tornou um mistério. Mas de algumas coisas eles se lembram: uma ameaçadora serpente, além de uma pessoa sendo entregue ao ninho da víbora - um sacrifício sem chance de recusa. 

Sobreviver à Ilha das Cobras tem um preço. E os amigos vão descobrir isso do pior modo. 

Leia um trecho de “Serpentário”  

Sua cabeça doía, o calcanhar também, e o medo e a ansiedade a atingiam como prenúncios de todas as instabilidades que acompanhavam as lembranças do réveillon. Quando sua memória sobre o passado começava a invadir o presente, toda a realidade falhava, como as luzes de uma casa piscando durante uma tempestade. Era assim que ela começava a perder o controle. 

- Algum problema aí, moça? 

Estava parada entre a fachada de uma casa de materiais de construção e um terreno baldio. Sem jeito, Caroline arrumou o cabelo, ajeitou uma mecha fujona atrás da orelha e se virou para o homem que a chamou, parado junto à entrada de uma lojinha, que deveria estar fechada àquela hora da madrugada. 

- Eu… tudo bem, tudo bem. É só uma tontura. 
- Quer uma água? - ofereceu ele, acendendo as luzes que ficavam próximas dos troncos dos coqueiros, no meio da grama do jardim. 

Caroline então percebeu que conhecia o sujeito. Não se lembrava de seu nome, mas sabia que ele havia feito manutenções e serviços gerais algumas vezes na casa da família dela durante sua infância. Ele com certeza não a tinha reconhecido. 

Não, tudo bem. Só pressão baixa, e tenho água aqui na mochila - respondeu, com um sorriso falso, mas que era disfarçado pela sombra. Para tentar fazer com que aqueles olhos desconfiados parassem de examiná-la, decidiu jogar conversa fora. - Você mora aí na loja? 
- O quê? Ah, não… Eu trabalho para eles, recebo mercadoria de vez em quando. E eles me indicam para reformas. Estou esperando uma carga de azulejos, devia ter chegado lá pela meia - noite. 
- Ele deu um passo para fora, mais à vontade. Caroline conteve o impulso de dar um para trás.
- E você? Veio passar o Ano-novo aqui? Amanhã vai fazer sol, hein. 
- Ah, sim. É. Vim visitar um amigo, na verdade. 
- Quem mora aqui? - Ele abriu um sorriso. Geraldo, Caroline lembrou. Seu Geraldo. - Então eu conheço! Qual é o nome do seu amigo? 
- Não, na verdade, ele é da Praia da Baleia - respondeu ela, sentindo que a conversa estava se alongando demais. 

Sua atenção começou a se despedaçar, dividida em vários detalhes e sensações. Em algum lugar de sua mente ou da cidade abaixo, Manson começava a latir de novo, como se a avisasse do perigo. Ao mesmo tempo, o mato alto no terreno baldio ao lado se agitou, mesmo que não tivesse vento algum. 

Eu também conheço um pessoal da Baleia. 
- É que ele já morreu. 
- Ah - falou o homem, e o sorriso se desfez. - Desculpa, eu não ti… 
- Tudo bem, não tem problema. Vou indo… 
- Mas olha, o cemitério mais próximo é um pouco longe daqui. Indicaram para você uma hospedagem nada prática. Você é bem-vinda, não me entenda mal, Deus sabe quanto a gente precisa do turismo aqui no litoral norte, mas você precisava ter pego uma pousada lá em Barequeçaba, ou perto da balsa para Ilha Bela… 

Com a infalível bússola interna de quem realmente vivia em São Sebastião, seu Geraldo apontou com exatidão para a direção de Barequeçaba e Ilha Bela. A atenção de Caroline se deteve no pulso, pouco antes do dedo em riste: uma tatuagem malfeita de um verde desbotado. 

Era uma serpente. 

A tatuagem se mexeu, colocando a língua vermelha para fora. O mato do terreno ao lado se agitou de novo, agora com um ruído baixinho, parecido com o de um chocalho. Geraldo não parecia estar escutando aquilo. A urgência tomou conta de Caroline. 

- É, verdade. Amanhã eu vejo isso, mas já reservei aqui mesmo. Boa noite. 

Em seguida, ela deixou para trás o primeiro de muitos moradores intrigados. 

> Fonte: Intrínseca  

Confira a entrevista com Felipe Castilho  

“Escrever fantasia é fazer frente aos dias absurdos que vivemos”. Felipe Castilho é um dos nomes mais promissores da literatura fantástica brasileira. Com a série Legado Folclórico, estreou e encantou inúmeros jovens por todo o Brasil. Seu quadrinho, “Savana de Pedra”, lhe rendeu uma indicação ao Prêmio Jabuti. Em 2017, Castilho lançou o primeiro volume de sua série “Ordem Vermelha”, que passou semanas na lista de livros mais vendidos do Brasil, ao lado de gigantes da literatura pop como Dan Brown, John Green e Neil Gaiman. 

Em seu segundo livro pela editora Intrínseca, lançado dia 18 de agosto de 2019, o autor brasileiro se aventura pelo gênero de terror, com “Serpentário”. O livro conta a história de quatro jovens, Caroline, Mariane, Hélio e Paulo. Em 1999 os amigos se aventuraram na terrível Ilha das Cobras, local com a segunda maior concentração de serpentes do planeta. Ali, a vida deles muda. Anos depois, agora adultos, os amigos tem de encarar o passado terrível que deixaram para trás. 

Apesar do tom macabro de seu novo romance, Felipe é extremamente simpático. O encontrei duas vezes pessoalmente. Na primeira, em uma palestra sobre folclore na UFMG, ele me recebeu com um sorriso e um abraço. Um ano depois, o encontrei no estande da Intrínseca, na CCXP, no lançamento de “Filhos da Degradação”, a primeira parte da “Ordem Vermelha”. Fui conversar com ele e, para a minha surpresa, ele me reconheceu. Disse que não sabia meu nome, mas se lembrava do meu rosto. Havíamos conversado por menos de cinco minutos no primeiro encontro. 

Esse é um relato comum dos leitores de Castilho nas redes sociais. Entretanto, Felipe afirma que não utiliza as plataformas digitais com a premissa de se promover para seu público. Ele os encara como amigos. O autor acredita que sistematizar a comunicação com seus fãs faria até mesmo sua escrita perder a graça. As redes sociais não são o maior forte do escritor. “Eu não consigo acompanhar tanto quanto eu gostaria, mas eu entendo que preservar minha saúde mental para escrever é importante, por isso não posso ficar o tanto quanto eu desejo.” Apesar disso, ele enxerga o Twitter como uma ferramenta capaz de despertar a empatia. “O Facebook e o Instagram não me permitem me colocar na pele de outro, no Twitter eu comecei a conhecer muito mais sobre espectros de sexualidade e ter empatia com outros grupos. Me sinto saindo um pouco da minha bolha privilegiada.” 

Gentilmente o autor aceitou meu convite de entrevista pelo Twitter e conversamos sobre seu interesse por literatura, seu novo livro e como Castilho vê o cenário político cultural brasileiro. 

Geeks United: Quando você se interessou pela literatura? 

Felipe Castilho: Minha mãe sempre me deu muito livro, ela o transformava em um objeto de desejo, como um brinquedo. Cresci viciado em livros. Quando tinha 16 anos, o “Senhor dos Anéis” foi publicado aqui e dois anos depois o primeiro filme foi lançado. Isso me motivou a escrever, mas não tinha nenhuma noção de narrativa. Comecei a fazer cursos e oficinas de escrita criativas. Publiquei meu primeiro conto na faixa dos vinte anos. Fiquei muito tempo com narrativas curtas, e aí em 2011, após diversas recusas com um livro que estava escrevendo, aceitei a sugestão de uma editora que gostou do meu tom e me aconselhou a escrever algo infanto-juvenil. Eu emulava um estilo que não tinha, tentava fazer algo sério demais, trevoso. Abri mão desse livro e escrevi “Ouro, Fogo e Megabytes”, meu primeiro romance publicado. É um livro bem mais leve e divertido e foi aí que encontrei minha voz, ao menos pra começar. 

GU: Além da sua família, alguém mais te inspirou? 

FC: Eu amo Mário Prata. A primeira coisa que eu li dele foi um presente que eu comprei pra minha mãe, o “Schifaizfavoire: Dicionário de Português”. Comecei a dar muita risada com aquilo. Eu era muito pequeno e ia em livrarias procurar livros que tivessem o mesmo estilo. Descobri assim Douglas Adams. E fiquei maravilhado, o Douglas Adams era como o Mário Prata da ficção científica. Eles me inspiram demais. Tem o André Vianco aqui no Brasil. Ele leu as minhas coisas quando eu ainda estava engatinhando na literatura. Na época ele me abriu bastante os olhos. A inspiração vem de todo canto. E quadrinhos né. Desde pivete, lendo bastante Vertigo, Marvel, DC. Principalmente Neil Gaiman e Alan Moore. 

GU: É a primeira vez que você escreve terror?

FC: Não. Já escrevi muita narrativa curta, muito conto, novela. Mas é a primeira vez que eu publico. Apesar de sempre haver um elemento ou outro de terror nas minhas obras. O “Legado Folclórico”, mesmo sendo juvenil, sempre tinha algumas partes macabras. O segundo e o terceiro livro tem elementos de terror. Só que eu não podia extrapolar, escrever um terror mais pesado do que a faixa etária do livro pede. A “Ordem Vermelha” segue nessa linha mas ainda assim não é um livro essencialmente de terror. No “Serpentário” eu pude extrapolar. Faz tanto tempo que eu não escrevo nada que não seja uma série, uma saga, que escrever um livro único me pareceu bom, pra eu mostrar essa outra faceta. Ainda assim, não deixa de ser um livro de fantasia, mas eu pude brincar bem com elementos do terror, inclusive com o terror psicológico, que é uma coisa que me atrai muito. Então foi a primeira vez que eu dei as caras nesse sentido. 

GU: Qual é o papel do Folclore no “Serpentário”? 

FC: Eu peguei vários recortes de muitos lugares, inclusive, algumas coisas que eu já tinha pensado em usar no “Legado Folclórico” mas por temer muita informação num livro só acabaram ficando de fora. Eu tinha uma ideia bem interessante para uma versão da lenda Cobra Honorato, que é uma lenda mais do Norte, e eu pensei em escrever algo que não era ligado ao “Legado”, mas que eu pudesse aproveitar, pudesse brincar com outros elementos de terror. 

“Serpentário” é um livro mais pesado, de uma maneira bem diferente do “Legado”, onde o personagem é um moleque aprendendo sobre o folclore, e as coisas acabam sendo apresentadas de uma maneira bem mais didática. O folclore está bem intercalado no “Serpentário”. 

Tem muita coisa daqui do folclore do litoral de São Paulo, tanto do litoral norte quanto do litoral sul. Tem lendas, como a lenda do Padre José Anchieta matando uma cobra gigante no litoral. Dizem que ele cortou a cabeça dela, outras lendas falam que essa cobra se escondeu numa gruta, perto da região de Ilhabela. Como a serpente é algo muito simbólico, tem vários significados, eu pude brincar demais com isso. O folclore tem muita coisa em relação a serpente, e cada personagem de “Serpentário” tem um trauma diferente. Todos eles tem algo ofídico no eixo do medo deles, então eu pude brincar bem com isso. Não deixa de ser um livro de folclore, apenas acredito que esteja em uma outra roupagem, um pouco mais pesada. 

GU: Como se deu a escolha da Ilha das Cobras pro cenário do romance? 

FC: Essa é uma armadilha para os leitores na verdade. Quando eu descobri o que é a Ilha da Queimada Grande, que o pessoal chama de Ilha das Cobras, eu fiquei muito fascinado. Existe quase uma brecha na evolução da serpente, lá tem cobras que evoluíram de maneira muito diferente das serpentes do continente. Em uma das vezes que eu estava visitando o litoral Norte, perguntei sobre a vida da região. Quase todo mundo me falava que a Ilha das Cobras ficava lá. Eu já tinha ouvido falar da Ilha da Queimada Grande e que ela era no litoral Sul. E quando eu questionava, cada um me dava uma versão. Alguns me falavam que a ilha ficava ali mesmo. 

Alguns falavam não, que a Ilha das Cobras fica no litoral Sul, perto de Peruíbe e Itanhaém. Então eu percebi que tinha uma desinformação muito grande, o que é normal do folclore. É claro que tem a parte científica da Ilha da Queimada Grande ser a ilha onde tem essas cobras especiais. Mas eu uso essa confusão que eu senti pra situar os personagens na trama. A narrativa se passa em dois tempos, lá em 1999 e depois em 2018. Na parte de 1999, quando eles são adolescentes, eles estão olhando pra uma ilha no litoral Norte e falando, essa é a Ilha das Cobras. O único personagem que é nascido nas praias do litoral, o Paulo, fala que na realidade essa é a Ilha das Couves, não a Ilha das Cobras. 

As outras crianças duvidam e eles vão lá ver. As crianças sempre querem se provar. É uma burrice inicial, uma teimosia que move a trama. De fato, a Ilha da Queimada Grande praticamente não aparece no livro, ela é um fator muito importante por conta dessa aura mística, mas eu guardei uma surpresa pros leitores. 

GU: Você chegou a visitar o local?

FC: Eu não fui a Ilha das Cobras. Só pode visitar o local acompanhando com um técnico do Instituto Butantã, ou do Exército e da Marinha. A Ilha das Couves, que todo mundo falava que era a Ilha das Cobras, eu fui. Passei em algumas ilhas da região com pescadores. Perguntava o quanto eles cobravam pra me levar pelo litoral. Cada vez que eu visitei eu ia pra alguma ilha diferente. Algumas delas tem cobras também, mas nada naquele número, seis por metro quadrado. Mas toda a história da Ilha da Queimada é muito fascinante. Você pode encontrar diversos materiais, pesquisas, falando sobre a família do antigo faroleiro e isso já gera um folclore, aquele telefone sem fio onde cada um fala alguma coisa. Até teria vontade de ir, talvez vestindo um escafandro de ferro, porque realmente é um local muito pavoroso, mas eu tenho uma curiosidade mórbida de ir lá. 

GU: Você citou a Ilha das Cobras como uma brecha na evolução e a sinopse oficial do seu livro utiliza a palavra “Darwinismo”. Qual a relevância da ciência no romance? 

FC: Enquanto eu escrevia o romance algo muito engraçado acontecia. Engraçado não né, mais rir pra não chorar. Houve diversas opiniões de pessoas públicas diminuindo a importância da ciência. Estamos ouvindo muitas falácias, como se estudar fosse coisa da esquerda bolivariana brasileira. Isso acabou me motivando bastante, falar sobre o que acontece quando você ignora a riqueza científica de um país. Durante a escrita aconteceu o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Tudo isso me machucou bastante. Isso transparece um pouco na história. Eu não tenho uma formação em ciências exatas ou biológicas, mas acredito que para escrever precisamos ser curiosos e antenados nesse campo, para não falar coisa errada. Minha indignação com o descaso que nossos cientistas estão sofrendo, o sucateamento da ciência nos últimos meses, isso me influenciou na hora de escrever. 

GU: Vivemos em um mundo onde ministros do atual governo falam abertamente contra livros de fantasia. Como você vê isso? 

FC: É um obscurantismo bem babaca. Seria bobo e infantil se não fosse tão nocivo. Nós passamos tanto tempo tentando construir um país que lê, um país que dê valor a seus artistas e um negócio desses parece que são dez passos para trás. Isso é típico de quem tem costume de ladrar que tudo o que é contrário a eles é ideologia, mas o que eles fazem, que é praticamente pregar queima de livros, isso não é ideologia. É uma coisa quase distópica que nós estamos vivendo, a distopia começa a perder a graça por conta de todas as proibições, perseguições, linchamentos virtuais. Tudo isso é um sintoma bem ridículo, é impossível escrever sem acabar alfinetando uma idiotice dessas. Parece às vezes que são esquetes de humor, falando sobre Elza do “Frozen” e livros sobre bruxas. Pelo amor de Deus, nós estamos em 2019, as crianças nunca foram tão espertas e inteligentes e nós estamos voltando a queima de livros. 

GU: A “Ordem Vermelha” tem um tom bem político. Você sofreu por conta disso? 

FC: Sim. Eu dei entrevistas para vários veículos, de todo o tipo. Antes do livro sair, rolou umas piadas sobre a cor vermelha. Existe essa paranoia. Depois que o romance saiu, teve gente falando que era uma obra nociva, que eu era um depravado. É essa histeria. A própria histeria que eu brinco na história. Todo o universo do livro foi construído em conjunto, com o pessoal da CCXP. Mas como eu sou o escritor, a minha opinião política não some quando escrevo. É um livro com uma sociedade oprimida. E você tem situações na trama que tratam sobre isso. As pessoas enxergam como elas querem, às vezes como se você estivesse tentando doutriná-las. É uma histeria generalizada, típica da galera que tenta ganhar no grito. 

GU: Qual a importância de utilizar o folclore nacional em produções brasileiras? 

FC: É muito bom a gente ter contato com tudo, produções artísticas e culturas do mundo inteiro. Mas é claro que a gente acaba ficando bem no meio de um canal que é simplesmente só Hollywood. É uma cultura de entretenimento que a gente não pode ignorar. Vivemos bebendo do folclore, da mitologia de outros países, isso é muito rico pra gente, conhecer o mundo e ter uma noção global das coisas. Mas a gente esquece muito do que tem ao redor. Um país tão grande, com tanta riqueza cultural, riquezas naturais, isso acaba sendo esquecido. Consumimos histórias de lugares que não falam tanto com a gente. No “Legado Folclórico”, eu tentei abraçar nossos mitos e lendas e mostrar nosso país. É possível criar um sentimento de pertencimento às pessoas, aos leitores. Fiz questão de visitar todos os lugares que estavam presentes nos livros. Fui visitar com o intuito de conhecer as lendas do jeito antigo, do jeito que o folclore é: da boca pro ouvido. Não só pesquisar pela internet, mas ouvir o relato de alguém. 

Hoje mais do que nunca, os escritores estão aprendendo a olhar pra dentro. Os livros, a ficção nacional, vai ter uma voz diferente. Falo mais pela área que eu atuo, na literatura fantástica e na ficção científica. Os autores dessa vertente estão mais do que nunca prestando atenção que a gente fala de um jeito que não é como falam nos filmes de Hollywood. Nós temos tramas que dizem mais a respeito de nós como pessoas, com dramas próprios, até pela forma conturbada de como nosso país surgiu. Ele já começou de uma maneira trágica, com os verdadeiros moradores daqui sendo escravizados e massacrados. Até hoje nós não os respeitamos. Ouvimos que o índio é vagabundo e que eles tinham que estar trabalhando. É uma coisa trágica, que com mais de 500 anos de história, de um país que não tem só 500 anos, se esqueçam disso. A ficção, pode abordar o nosso país de uma maneira mais incisiva e é isso que eu tento fazer. 

GU: Pra você qual que é a importância da escrita fantástica, da fantasia, nos dias de hoje? 

FC: Vários escritores vão responder de uma maneira parecida que nós escrevemos fantasia para fugir da realidade, que ela pode ser uma representação do real através de metáforas. Mas nós vivemos em dias absurdos, que tentam normalizar o absurdo. Escrever fantasia é uma forma de resistência a essa realidade forçada, uma maneira de fazer frente. Parece que tudo o que surge de uma maneira mais popular e espontânea, é colocado debaixo de uma camada de “isso não é sério, isso é lixo”. A literatura de terror já foi totalmente pulp e hoje temos grandes nomes escrevendo, sendo um gênero procurado e apreciado pelos leitores. A literatura fantástica também já foi levada como algo que não é sério, algo infantil, mas tem tanta gente produzindo coisas magníficas, que só podem ser abordadas através do insólito, da fantasia, que eu acabo preferindo ficar nessa parte, até por uma espécie de resistência. O Brasil é um celeiro incrível de autores muito criativos que estão preocupados tanto com a parte imaginativa tanto com a forma da escrita. Gente boa que vai ficar pra história. 

> Fonte: Geeks United